sexta-feira, 13 de junho de 2008

Uma página se vira

Há anos eu peço da minha mãe para se mudar da casa onde fui criada. É grande, dispendiosa e eu tenho sonhos recorrentes com ladrões entrando lá. Sei que não é premonição, sexto sentido, ou o que quer que seja. É apenas preocupação.

E uma preocupação com fundamento: ano retrasado eu estava sozinha em casa, dormindo que nem uma pedra (já não aguento nights como antigamente). Era manhã de domingo.

Nosso vizinho ligou pro meu pai pra avisar que estavam tentando entrar na casa. Os imbecis dos ladrões procuraram a janela que não tinha grades (as grades ficam pelo lado de dentro, mas dá pra ver pela veneziana) e a arrombaram. O que eles desconheciam é que aquela janela era do quarto de empregada, e que aquele quarto não tinha ligação com o resto da casa, apesar de estar no mesmo prédio.

Eu, sozinha e desmaiada na cama, não ouvi os cachorros latindo, nem o telefone tocando, nada.

Por muito tempo eu quis que minha mãe fosse pra um apartamento e alugasse a casa. Vendê-la, pra mim, seria como destruir uma parte da minha vida. Eu lembro de quando nos mudamos pra lá, em 1982. Lembro como as árvores ainda eram apenas mudas; lembro da nossa casinha de bonecas que virou a casa do Apolo (cachorro); sinto saudade do Fusca estacionado na grama.

Lembro, também, das inúmeras brigas que aquelas paredes ouviram; dos aniversários ali comemorados; das pessoas gritando no portão, pois a campainha ficou tanto tempo sem funcionar que as pessoas nem percebem que tem uma nova.

As coisas mudaram, minha irmã se foi, e aquela casa parece mais imensa do que já era.

Um dia resolvi deixar de lado esse meu apego ao material e falei uma das frases mais clichês que já proferi:

- Mãe, as lembranças não estão na casa. Estão na minha memória.

E a casa foi vendida.

Mesmo que eu não precise da casa de muro amarelo pra lembrar das coisas, vai de alguma forma doer no meu coração passar por lá e não vê-la.

ps: Sas, imagino o choque.

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