terça-feira, 15 de julho de 2008

Polícia para quem precisa

Saí do Rio há seis meses e só agora tenho a real noção do caos que se instalou naquela cidade. Todos os dias leio notícias sobre a violência carioca, em especial da Polícia Militar. Qualquer morador da Cidade (outrora) Maravilhosa tem medo de PM: seja pela extorsão, a que qualquer um de nós está sujeito, ainda que não esteja fazendo nada de errado; seja pelos tiroteios em ações desastradas, uma vez que bala perdida não escolhe alvo.

Até muito pouco tempo atrás, uma grande parte da classe média, das "elites politizadas", os tais moradores-zona-sul-fumadores-de-maconha-que-se-vestem-de-branco-pra-reclamar-da-violência eram adeptos do lema "bandido bom é bandido morto".

O "problema" é que agora as ações desastradas são o padrão do trabalho da corporação. Assim, os disparos que antes eram direcionados aos "bandidos" estão atingindo a classe média, gente-como-a-gente. Pode ser na saída do Túnel do Joá (o caso da engenheira Patrícia), na volta da academia (Luiz Carlos Soares, vítima de sequestro relâmpago), ou as 19:40 h numa rua da Tijuca (João Roberto, o menino de três anos). Qualquer um de nós poderia estar ali. Patrícia poderia ser nossa amiga, João Roberto nosso sobrinho, Luiz Carlos, um colega de trabalho. Não é mais o Zé Ninguém que morreu num tiroteio no Vidigal, nem o John Doe que sumiu da Mangueira e foi enterrado como indigente. Agora, o tiro está entrando pela janela dos nossos Palio, Gol, Siena. Pode entrar no meu Fiesta, ou no seu apartamento de Ipanema.

É, é isso mesmo que você leu. Enquanto os crimes eram barbaramente cometidos por essa mesma polícia contra pessoas tão distantes da nossa realidade, ninguém colocava mais de mil comentários (não estou exagerando) na notícia no Globo Online.

Onde estão as pessoas que assinavam embaixo da truculência policial? Que acham que o massacre do Carandiru foi uma "limpeza"? Ora, os policiais que matam o bandido são os mesmos que estão matando os "civis" (sim, eu juro que já li essa expressão). O julgamento sumário a que tantos favelados foram submetidos anos e anos a fio está sendo utilizado a cada projétil que vem na nossa direção.

Estado Democrático de Direito? Ninguém clamou por isso quando não éramos nós que estávamos morrendo, não é mesmo?

Nenhum comentário: