quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Ontem aconteceu mais um "acidente" de asa-delta no Rio de Janeiro.  Ironicamente, numa quarta-feira, tal qual aquele 12 de novembro que acabou com a minha vida. 

O que muita gente não sabe é que o vôo duplo com fins comerciais é proibido pela legislação aeronáutica brasileira. Vôos duplos são permitidos, sim, mas apenas como processo de instrução. Em tese, os passageiros são alunos de cursos de pilotagem. 

Os pilotos, associações e clubes burlam a legislação, ao enquadrar os vôos turísticos como sendo instrucionais. Por esta razão é que sempre se referem ao piloto como "instrutor". Convenhamos: ele não está ensinando nada. É um passeio recreativo, turístico, e extremamente vantajoso.

O Sr. Roberto Menescal, presidente da Associação Brasileira de Vôo-Livre (ABVL) à época do acidente da minha irmã, afirmou EM JUÍZO que todos os passageiros de vôo duplo são pessoas interessadas em pilotar uma asa. Qualquer morador do Rio de Janeiro sabe quão falsa é esta afirmação. 

Há alguns anos um vôo duplo custava a bagatela de 200 reais. Façamos as contas: se um piloto fizesse um único vôo ao dia, de segunda a sexta, ele ganharia 1.000 reais por semana, ou 4.000 reais mensais. Sem incidência de qualquer imposto de renda, INSS, PIS, Cofins, ou coisa que o valha. Quatro mil. Limpos. Lembro que um vôo dura cerca de 15 minutos e ainda tem mais o tempo de subir até a pedra, montar a asa e depois desmontá-la. Digamos que eles levem 1 hora pra fazer isso tudo. Está de bom tamanho, não está?

Desconheço os valores que são praticados atualmente, mas desconfiava que as normas de segurança não estavam sendo seguidas. O acidente de ontem só me deu a certeza de que tudo continua como dantes no quartel de Abrantes, o que é muito triste e frustrante. Afinal, a morte de duas pessoas (só uma me dói - imensamente, aliás - mas não podemos esquecer do piloto) foi absolutamente em vão.

A ANAC continua fazendo vista grossa, a prefeitura do Rio finge que não é com ela, as agências de turismo continuam vendendo o "passeio" e os pilotos e associações continuam enchendo os bolsos de dinheiro. Enquanto isso, neste exato momento há pelo menos uma família com um parente internado na UTI (as informações são vagas e desencontradas; uns dizem que o piloto é que se machucou muito, outros dizem que foi o turista canadense). 

Não ficamos de braços cruzados e entramos com ação judicial indenizatória. A sentença da primeira instância nos foi favorável, estabelecendo reparação pecuniária. O processo continua transitando. 

É muito doloroso remexer nestes fatos, especialmente por sabermos que nada mudou. Mas é nosso dever, enquanto cidadãos, tentar mudar a história do nosso país. É o que estamos (eu e minha família) fazendo.


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